Em programação de software a sigla SOLID tem ganhado cada vez mais importância. Trata-se de um acrônimo popularizado por Robert C. Martin (o Uncle Bob), onde cada letra representa um dos cinco princípios do OOD (object-oriented design) que, quando aplicados em conjunto ou isoladamente, possibilitam a criação de códigos com facilidade de manter e de se estender ao longo do tempo.

Esse é o primeiro post de uma série onde abordaremos todos os cinco princípios do SOLID. O primeiro é sobre “Single responsibility principle”, abreviado por SRP, e significa literalmente “Princípio da Responsabilidade Única”.

Para começar: falar de SOLID é falar de programação orientada a objetos e design (OOD). Tendo isso em mente, o Princípio de Responsabilidade única traz uma perspectiva diferente para a orientação a objeto: a coesão.

Tá, e o que é coesão?

Segundo o dicionário online Dicio:

  • Cujas partes estão ligadas harmonicamente entre si: coesão do governo. União; harmonia; associação íntima: a coesão das partes de um Estado.
  • Uso correto dos aspectos gramaticais que conectam os elementos de um texto, tornando-o claro e compreensível.
  • [Figurado] Coerência de pensamento; fundamento que dá sentido a uma obra. Aderência; força que une as moléculas e/ou átomos às partes constituintes de um corpo, fazendo com que eles não se partam. (Etm. do francês: cohésion)

Fonte: dicio.com.br/coesao.

E no mundo do desenvolvimento de software, o que é coesão?

Algo que faça sentido para alguém. E este alguém, é quem irá consumir uma determinada classe e seus métodos. Cada participante deve ter somente um propósito para existir. Ou seja, coesão é consequência de ter-se um bom design e não violar SRP.

E as vantagens de se ter alta coesão (ou “coesão forte”)?

Redução da complexidade das classes e métodos (eles ficam mais simples, com menos operações).

Definição de responsabilidade

Segundo o dicionário online Dicio:

  • Obrigação; dever de arcar, de se responsabilizar pelo próprio comportamento ou pelas ações de outra(s) pessoa(s).
  • [Por Extensão] Sensatez; competência para se comportar de maneira sensata.
  • Natureza ou condição de responsável; capacidade de responder por seus próprios atos; qualidade de quem presta contas as autoridades.
  • [Jurídico] Obrigação jurídica que resulta do desrespeito de algum direito, através de uma ação contrária ao ordenamento jurídico.

Fonte: dicio.com.br/responsabilidade.

E no contexto de um código?

Robert C. Martin, em seu livro (Agile Software Development, Principles, Patterns, and Practices), define responsabilidade como: uma classe deve ter apenas uma razão para ser alterada.

Problemas da violação do SRP

Se uma classe possui mais que uma razão para ser alterada, entende-se que ela possui mais que uma responsabilidade, tornando-a desconexa (não coesa).

Quais problemas uma classe desconexa poderá causar para a aplicação?

  • Dificuldade no reuso de suas responsabilidades;
  • Dificuldades na manutenção (dificuldade em manter e/ou evoluir por conta do excesso de responsabilidades);
  • Aumento na rigidez e fragilidade: quando alterar uma responsabilidade, outra pode ser comprometida;
  • Alto acoplamento da classe.

Exemplos

Os códigos dos exemplos serão exibidos somente com as assinaturas, para reforçar a idéia que Uncle Bob traz, de que a implementação dos métodos é irrelevante para a análise. Somente com as assinaturas, conseguimos perceber se existe (ou não) a violação do princípio.

Exemplo 1

Considere o arquivo abaixo, onde temos a classe PopulationStandardDeviation e a sua responsabilidade é calcular o desvio padrão populacional.

package com.leonardorifeli.article;

public class PopulationStandardDeviation {

    public double mean() { }
    public double calculate() { }
    public double deviationSumSquare() { }

}

Perceba que, o nome da classe diz exatamente qual é a sua responsabilidade, calcular o desvio padrão populacional.

Com o exemplo acima, podemos ver rapidamente a violação do princípio, onde ela expõem o método mean() e quem implementa esta classe não espera que ela faça cálculo da média. Apesar da média fazer parte do algoritmo para calcular o desvio padrão populacional, ela não faz parte da responsabilidade da classe, logo, a exposição do método mean() mesmo fazendo parte do algoritmo, viola o princípio. O método mean() não deveria ser exposto. Mesmo problema com o método deviationSumSquare().

Neste caso, para que não haja a violação do SRP, deve-se deixar ambos os métodos (mean() e deviationSumSquare()) como private ou isolar eles em outras classes, injetando-as como dependência na PopulationStandardDeviation.

Exemplo 2

Neste segundo exemplo, considere o arquivo abaixo, onde temos a classe Report e a sua responsabilidade é gerar relatório.

package com.leonardorifeli.article;

public class Report {

    public ArrayList<String> find() { }
    public ArrayList<String> proccess() { }
    public void print() { }

}

O nome da classe também diz exatamente qual a sua responsabilidade, gerar relatório.

Na visão do usuário, gerar relatório é apenas fazer com que os dados sejam exibidos em tela (ou impressos), de modo organizado. No nível de desenvolvimento de software, gerar relatório engloba vários fatores, sendo eles: buscar os dados, processá-los, organizá-los e exibi-los em tela (ou impressos).

Perceba que para gerar um relatório são envolvidas várias responsabilidades. A classe Report, por exemplo, possui várias razões para ser alterada: como mudar o método find() para buscar os dados em outro lugar, mudar o método proccess() para alterar uma regra de domínio e até mesmo alterar o método print().

Como poderíamos melhorar essa classe?

Inicialmente, precisaríamos isolar o método find() em um contexto de repositório (outra classe que faça somente a busca dos dados no banco). Depois, poderíamos isolar o método proccess() noutra classe e que teria apenas uma responsabilidade, processar os dados que vieram do banco de dados e tratá-los de acordo com o domínio em questão. Finalmente, deixaremos a classe Report com a injeção das suas dependências, tendo somente o método generate().

Referências

Conclusão

O SRP é um dos princípios mais importantes da orientação a objetos. Atentando-se a ele, seus códigos ficarão mais coesos, simples e manuteníveis. É um princípio bem extenso e os exemplos tendem ao infinito.

Podemos continuar as discussões sobre este princípio nos comentários?

Compartilhe conosco seus aprendizados.

Agradecimentos

A ContaAzul, por proporcionar o espaço e me dar a oportunidade de compartilhar meu conhecimento. Ao Leonardo Camacho, pelo auxílio nas correções e incentivo para escrever. Para Carlos Becker, Lucas Merencia, Marcos Ferreira, Marcelo Ed. Junior e Jeferson Kersten pelo incentivo e auxílio dos assuntos aqui descritos.